Despachantes relembram curiosidades e episódios no Porto de Santos

Sindicato da categoria completou 105 anos

Eles são de um tempo em que a caligrafia era impecável, a palavra valia mais do que ouro e a educação e o bom humor abriam portas no dia a dia do maior complexo portuário da América Latina. Para quem passou mais de meio século atuando no Porto de Santos, foram grandes as mudanças. E as histórias do cais santista continuam sendo relembradas nas rodas de conversa no Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de Santos e Região (SDAS), que completou 105 anos no sábado (26).

Na década de 50, esses profissionais eram chamados de caixeiros viajantes. A atribuição era a mesma: o desembaraço de mercadorias que desembarcavam no Porto. Mas, o cotidiano era bem diferente. Em dias de sol, havia o calor escaldante dos armazéns. Já durante a chuva, a saída era apelar para sapatos mais resistentes que protegiam os pés da lama do cais.

“E foi assim que a classe foi se unindo e ficando conhecida. Fizemos amizades bonitas, duradouras. Lembramos das histórias e rimos até hoje. Algumas são impróprias”, afirmou o aposentado Antonio Ventura, de 80 anos, que atuou como despachante aduaneiro por mais de 52 anos.

Deste período, várias histórias para contar. Muitas delas são inimagináveis nos dias atuais. “Uma pessoa apresentou a DI (Declaração de Importação) e estava marcado ‘x’ motores de 40 cavalos. Foi para conferência. De repente, um fiscal novo, que veio do Rio de Janeiro, olhou, examinou a mercadoria e percebeu que os motores eram de 20 cavalos. Então esse colega falou: não se importe, os outros cavalos vem no outro navio. E deu certo, a carga foi liberada. Isso nunca aconteceria hoje”, contou Ventura.

As descargas de animais vivos também reservavam surpresas na hora do desembaraço. O aposentado Saul Ferreira Costa, de 84 anos, participou de algumas delas, durante os 54 anos em que atuou como despachante. “Era uma importação de 12 novilhas, que é a vaquinha mais nova, de origem holandesa. Na hora da descarga apareceram 13. Contávamos, recontávamos e víamos 13. O fiscal engripou por causa disso porque uma não estava declarada. Mas uma das novilhas teve cria a bordo e veio um bezerrinho junto”, relembra.

Neste caso, a saída foi pesar toda a carga novamente. Os animais foram liberados aos importadores porque o peso estava dentro da tolerância permitida pelas autoridades.

O contrário também já aconteceu. E renderam um apelido que ficou bastante conhecido no cais santista, de acordo com o despachante aduaneiro Laire Giraud, de 70 anos. Tudo começou na contagem de bois da raça zebu que desembarcaram no Porto. “Sucuri era um colega que comeu um boi na contagem. Eram 100, mas ele só constatava 99 porque todos se mexiam sem parar. O agente de navegação e o conferente viram 100, o fiscal também. Mas só o despachante contava 99. Ligou para o chefe, que disse que ele havia comido um boi. Assim, ficou conhecido por anos”.

Confiança

Aos 82 anos, José Carlos Leitão de Barros Saraiva garante que o tempo que atuou como despachante era menos complicado e mais engraçado. “A informação tinha de ser precisa, Alguns extrapolavam, mas era sempre por segurança”.

 Para o aposentado Adolpho Ferveda Arias, de 76 anos, conhecido como Onça, era uma realidade bem diferente da atual. “Vivemos uma fase do romantismo aduaneiro. Podíamos conversar com os fiscais e ponderar, assim como ele”.

Aos 85 anos, com 71 anos de profissão, o despachante Carlos Antonio passou por várias mudanças no Porto. Deixou de lado as vias manuscritas e datilografadas e encarou os atuais sistemas informatizados. “Não é que caiu o serviço. É que agora ele é mais rápido. A Alfândega só abria ao meio-dia. Ficava tudo para amanhã. Sem contar os contêineres. Antes, eram 15 dias para descarregar um navio, agora é uma tarde”.

O aposentado Newton Sérgio Petty, que atuou como despachante por 56 anos, também constatou essa evolução. “Mudou tudo. As declarações deixaram de ser feitas à maquina e passaram a ser feitas no sistema da Receita. Hoje, isso é tudo feito pela internet”.

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Com 43 anos de profissão, o despachante aduaneiro Laire Giraud não pretende deixar de trabalhar. Hoje, com uma carga menor de atividades, ele divide o tempo entre o escritório e sua coleção de fotografias e cartões postais.

“Trabalho com meus filhos. Hoje, sou uma figura mais decorativa. Ninguém mais liga querendo falar com o Laire, todo mundo quer falar com os meus filhos, que estão tomando conta de tudo muito bem. Mas eu venho todos os dias, não deixo de estar aqui. Só não é mais aquela loucura que era antes. Cheguei a deixar o escritório à 1 hora e voltar às 6”, explicou o despachante, aos 71 anos.

Além de atuar no departamento financeiro da empresa, Laire virou uma espécie de referência em Santos. Com um acervo de cerca de 2,5 mil cartões postais e 4 mil fotografias de navios, que já o levaram a publicar livros sobre o passado do complexo marítimo e da região, história é o que não falta para contar sobre os pontos turísticos e o setor portuário.

“A maioria (da coleção) é de navios que vinham para o Atlântico Sul e passavam por Santos. Não tinha interesse pelos que passavam pelo Atlântico Norte. Queria mesmo os que atracavam no Porto de Santos para registrar”, explicou.

Hoje, ele é um leitor assíduo da coluna A Tribuna nos Anos 70. Sempre que é publicada uma notícia relacionada do complexo santista, o despachante a localiza em seu acervo. “Sempre encontro as fotografias dos navios e as publico na internet. Essa é a minha contribuição”.

Fonte: http://goo.gl/hAhoMK

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